terça-feira, 20 de setembro de 2011

Momento de Refletir

Posted by Daniela Carvalho | terça-feira, 20 de setembro de 2011 | Category: |

Diário de um personagem




Dia 7 de setembro de 2011, comemoração da Independência do Brasil. A chuva começou a cair e não parou mais. As cidades do Alto Vale do Itajaí começaram a sofrer com isso. Com a água veio a consequência: morros desabaram, lavouras foram arrasadas, rios se encheram, cidades em estado de calamidade pública e, desgraçadamente, o povo chorando por terem perdido os seus pertences, aquilo que, quem sabe, conquistaram durante toda a vida, sendo carregado pela fúria das águas que por onde passam levam a destruição. A cena foi de horror, pessoas ilhadas esperando serem salvas, enquanto pelo buraco da janela, viam descer com o rio troncos de árvores, lixo, até casas, carros e animais... Tudo o que se podia imaginar. O trabalho da Defesa Civil, Polícia Civil e Militar, Corpo de Bombeiros... foi árduo, horas e horas de sufoco no campo e na cidade, pois pessoas – em todos os cantos – precisavam de ajuda. Os hospitais estavam cheios e os funcionários não podiam exercer suas funções, era um caos. Noites terríveis! Noites que, com certeza, ficarão marcadas nos corações dessa gente. Idosos contam que nunca viram tamanho acontecimento. O que aconteceu no mesmo lugar na década de 1980 não teve tanto impacto quanto agora. O rio foi subindo, subindo, subindo... e o povo agonizando, pensando que iria parar, mas muito enganados estavam, não acreditaram na força da natureza. As cidades que, na sua maioria são construídas à beira dos rios sofreram muito, já que a água invadiu habitações (de pobres e ricos, na igualdade) e comércio. As pontes que dão acesso ao centro, no caso de Ituporanga, estavam impossíveis de transitar, pois era muita água.

Ao passar aquelas noites de horror, as encostas dos rios amanheceram cheias, não só de água e sujeira, porém de gentes. As pessoas – como eu – decidiram olhar a voracidade da destruição. Jornalistas, repórteres, fotógrafos, seminaristas... todos reunidos para marcar presença nas páginas da história que serão escritas, sem dúvidas. Quem observava se perguntava: “O que devo fazer?” E a resposta era imediata: “Nada, só é preciso que as águas baixem”. Realmente aconteceu, rapidamente o rio começou a diminuir. A brilhante mágica chamada solidariedade era visível, pessoas de todos os lugares possíveis, com tratores, carros, máquinas, ferramentas, braços... começaram a pôr a mão no barro para tentar recuperar o destruído. Andando pelas ruas via-me em uma cidade fantasma, onde o lodo, o mau cheiro e, principalmente as lojas arruinadas, algumas com prejuízo total. Observando os rostos machucados pelo sofrimento, percebi as lágrimas escorrendo, como as águas do rio. Apesar do tumulto causado pelos curiosos, hoje acredito que nem tudo está perdido, pois como disse, existem pessoas generosas que doam a sua vida para a construção de um mundo melhor. As máquinas da Prefeitura estavam “com a corda toda” limpando e organizando as ruas. Mãos amigas iam se unindo para limpar as casas, as lojas... para poderem voltar logo à ativa. As orações subiam e sobem aos céus de todos os lados, católicos, protestantes, evangélicos... em comunhão, buscando no sofrimento, esperança de recomeçar, pedindo forças para trabalhar e reerguer as construções materiais e espirituais. Enraizados na fé, o povo continua gemendo e chorado, porém, com oculares num futuro promissor.

Minhas impressões foram muitas, entretanto, ressalto que, ao ajudar uma família necessitada, uma senhora me chamou e disse: “Chegue em casa e escreva em seu diário: Hoje, seminaristas ajudaram pessoas flageladas pelas enchentes”. Essas palavras tocaram e martelaram em meu coração. Foi então que comecei a refletir se aquilo que fiz foi verdadeiramente generosidade e compaixão. Eu e meus irmãos fizemos o que era possível para ajudar o povo, desde lavar casas até lavar roupas. Tudo num gesto de amor, como nos pede Jesus Cristo, nosso inspirador. Reconheci a fraqueza humana nesses atos de ajuda mútua, pois enquanto grande parte da população era solidária, a outra saqueava o comércio e ainda era espectadora, como se fosse uma peça de teatro que, ao fechar a cortina tudo voltaria ao normal. Tomara que essa cortina se feche logo e essas cenas de tristeza acabem, não deixando sequelas aos protagonistas. Pode-se pensar que essa tragédia está chegando ao fim, mas e nas demais cidades da região? Cidades literalmente em baixo d’água, pessoas sem poder sair de suas casas, algumas mortes e as águas demorando a descer. Perguntei-me: Quando tudo isso irá acabar? Incessantemente devo agradecer a Deus pelo dom da vida, que ainda não me foi tirada.

O que ficou de tudo isso foi a esperança e a solidariedade, já que pessoas de todo o Brasil continuam enviando alimentos e roupas aos atingidos. Restou-me acreditar nos profetas da atualidade que dizem: “Essas marcas feitas pelas águas nas construções, tenham certeza, serão limpas pelas águas vindas do mesmo rio, futuramente”. Fico, sim, com medo, pois as futuras gerações sofrerão tanto quanto essa. Em suma, a humanidade tem uma independência – quem sabe – política, econômica, religiosa... e não ecológica. É difícil e impossível viver sem os quatro elementos: água, terra, ar e até o fogo, deve ser posto na balança e equilibrado, como vi e vivi, tudo em excesso é prejudicial.

Para o Povo de Deus atingido pelas enchentes fica a fé de recomeçar, para as águas do rio fica a esperança de não voltarem. As marcas e manchas embarradas pela angústia são muitas, em alguns casos inesquecíveis, comigo é e será assim, em poucos anos de vida nunca imaginei presenciar um fato tão marcante como esse. Trago na memória uma cidade inundada e depois uma cidade fantasma, dois extremos que retratam a destruição dessas enchentes. Cabe agora cantar a música: “Tenha fé em Deus, tenha fé na vida, tente outra vez...” ensinando o caminho para a superação.

Por fim, essas páginas da história são e serão escritas com muita água, muito barro, muita destruição, muitas mãos – que ajudam e que roubam, com sangue dos mortos e feridos, com o suor das autoridades e da população que vai construir uma nova história, certamente essa também será de dor e alegria, mas como uma boa história, no final diremos juntos: “E viveram felizes para sempre” ou quase sempre. Assim seja!



Ituporanga, 11 de setembro de 2011, memória do ataque as Torres Gêmeas, em Nova Iorque.
Por Seminarista Geferson Guisso





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